quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O êxtase de Santa Teresa


“O êxtase de Santa Teresa” é uma das obras barrocas mais fantásticas produzidas por Bernini. Localizada em uma capela da igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma, a escultura representa o encontro de Santa Teresa de Ávila com um anjo, cuja flecha trespassou-lhe o corpo e a fez encontrar-se diante do amor divino. Mas o que os observadores da obra conseguem ver ao deparar-se com a escultura é algo, no mínimo, diferente. A Santa está com uma expressão sensual, largada a um prazer aparentemente carnal, enquanto o anjo sorri e olha para ela.

As características presentes no Barroco evidenciam-se já nesse plano. A mescla entre o profano e o sagrado, que no barroco será levada ao ápice, torna-se praticamente o tema da obra. Há também um jogo de posições entre os personagens, cuja relação simbiótica é notória. A presença de cada um deles é extremamente importante para o outro, de forma que se os dois fossem separados não funcionariam como peças escultóricas, e se tornariam completamente deslocados em qualquer plano que fossem colocados.

Podemos observar também um enorme entablamento, que apesar de aparentar o estilo clássico, na verdade apresenta as voltas e formas côncavas e convexas do barroco. Há nela também uma descontinuidade, com um recuo profundo, que faz as laterais se sobressaírem ao centro do frontão. Essa forma nos lembra o teatro,  induzindo-nos a crer que as figuras estão a apresentar-se num palco.

Os diversos tipos de mármores utilizados, em cores e formas diversas, além da dramática luz que aparentemente surge do nada sobre a peça, iluminando o conjunto escultórico e o bronze (que forma os raios por trás e por sobre as figuras escultóricas), evidenciam mais fortemente as características barrocas. E o que falar da obra como um todo? A própria colocação das peças sobre o altar ao qual estão inseridos proporciona uma carga dramática tão fabulosa que faria chorar (ou corar) o mais insensível dos fiéis que ali se encontrasse.

Grande abraço!
-- Thiago Amorim

domingo, 15 de julho de 2012

A Basílica de São Marcos


Basílica de São Marcos - Vista da praça


Localizada no centro da cidade de Veneza, ao lado do Palácio dos Doges e da famosíssima Praça de São Marcos, a Basílica é talvez a mais oriental das igrejas do Ocidente. Durante séculos simbolizou a estabilidade e a grandeza da Sereníssima República de Veneza, ostentando joias preciosas e fabulosos tesouros. Sua planta em estilo bizantino baseou-se abertamente na famosa e lendária Igreja dos Santos Apóstolos de Constantinopla, com seu formato de cruz grega, encimado por cinco cúpulas grandiosas.

Com cerca de 1.200 anos é uma das igrejas mais antigas ainda de pé no mundo. Sua construção iniciou-se no fim do século IX e, após algumas revoltas e destruições, perdurou por todo o tempo em que a República de Veneza era importante, ou seja, pelos próximos setecentos anos. A cada contato com uma terra distante, os mercadores venezianos traziam artefatos para presentear a igreja, tornando-a incrivelmente rica.

Planta Baixa da Basílica
A coleção de tesouros da basílica é curiosa, e em alguns casos duvidosa. Tudo foi garimpado através das conquistas da república veneziana em terras distantes, com guerras de extermínio e exploração dos lugares atacados. Os cavalos que decoram a fachada da Basílica, por exemplo, vieram do antigo hipódromo de Constantinopla, cidade esta despojada dos seus magníficos tesouros da Antiguidade pela ambição do Doge de Veneza durante a quarta cruzada.

As relíquias de São Marcos, que deram o nome a Basílica, também têm uma história interessante. Foram encontradas coincidentemente pouco tempo depois do desaparecimento dos restos mortais do túmulo de Alexandre, o Grande, em Alexandria no Egito. Para alguns, as relíquias pertencem ao famoso general Macedônico, enquanto para outros pertencem de fato ao Santo.

A igreja é completamente decorada com mármores de vários tipos, e dos mais diversos lugares. Também há uma fabulosa coleção de mosaicos bizantinos, todos esplendorosamente recheados de generosas quantidades de ouro. E não se deve esquecer o incrivelmente belo e fabuloso “Pala D’Oro”, um retábulo feito por ourives constantinopolitanos no século X e ricamente decorado em ouro, metais e gemas preciosas, como rubis, safiras e esmeraldas. Entre as relíquias ainda há o “Ícone da Mãe de Deus de Nikopeya”, roubada de Constantinopla no século XIII, e que figura entre os mais importantes artefatos religiosos presentes na Basílica.

Estátua de São Marcos - Fachada da Basílica
As cúpulas de madeira revestidas com placas de cobre que exibe atualmente foram anexadas num período tardio, para aproximar-se do gótico do Palácio dos Doges, o que explica porque no interior do edifício a igreja tem cúpulas achatadas, lembrando pires, e na parte exterior, cúpulas tão altas e afuniladas. Tanto o interior quanto o exterior são recheados de estátuas de santos e mártires da Igreja Católica.

O famoso campanário, construído diante da Basílica, faz parte do seu conjunto arquitetônico e é uma réplica de mesmas proporções de um mais antigo, destruído em 1902. A reconstrução demorou dez anos, tendo sido o edifício consagrado em 1912 por ocasião da festa de São Marcos.

Nikopeya - Ícone


Mas o triunfo dos venezianos não duraria para sempre. Com o fim do Império Bizantino e o descobrimento da América, seus comerciantes perderiam o lucrativo comércios com a Ásia, e a república entraria em ampla decadência. Quando Napoleão conquistou a Europa, Veneza caiu em suas mãos e foi despojada de seus tesouros. Agora tudo indicava que a gulosa república pagaria seus pecados do passado na mesma moeda.
O destino, entretanto, não seria tão traiçoeiro. Após a queda do egocêntrico Imperador francês, ela seria ressarcida pelos seus prejuízos, mas economicamente continuaria arruinada. Ainda assim, os erros do passado acabaram se mostrando um acerto para o presente: a coleção de tesouros da cidade, aliada a toda a história do lugar, a salvou da derrocada financeira através do turismo moderno.

Com uma história cheia de roubos e saques, cujo Império Bizantino foi sua maior vítima, a Basílica de São Marcos, e a própria cidade de Veneza, na verdade tornaram-se uma importante lembrança daquela sociedade. Quando Constantinopla caiu no século XV, suas instituições foram desmanteladas pelo Império Otomano e várias joias arquitetônicas e culturais perdidas. Não fosse a “guarda” dos artefatos pelos venezianos, muito mais coisas teriam se perdido para sempre. O que nos mostra mais uma vez os irônicos caprichos da história.

Grande abraço!

-- Thiago Amorim