quarta-feira, 17 de julho de 2013

Os Estados Pontifícios

Brasão Papal
Apesar de muitas pessoas nunca terem imaginado, o território que hoje é conhecido como Estado do Vaticano é na verdade um último resquício do que um dia foram os Estados Papais (ou Estados Pontifícios). Seu território era vasto e compreendia grande parte das terras da moderna Itália, existindo por cerca de mil anos.

As origens do poder e domínios papais remontam aos tempos de glória do Império Romano. Após a adoção do Cristianismo pelo Imperador Constantino, e a sua oficialização como religião do Império por Teodósio, a Igreja Católica alcançou um status jamais imaginado. Era a representante de Deus na Terra, sob a liderança do Vigário de Cristo, o Papa. Seu poder, que de início era partilhado com o Imperador, tornou-se único e irrestrito após a destruição de Roma pelos povos do Norte da Europa na segunda metade do século V.

Essa situação, entretanto, não era tão confortável. A ameaça dos povos que invadiam a Itália tornou a vida do Clero Romano muito difícil, e a fragilidade do governo de diversos Papas faziam-nos dependentes dos monarcas europeus. Roma nesse período caiu nas mãos de povos diversos, inclusive dos bizantinos no século VI. A ameaça tornou-se tão gritante que até os Sarracenos estabeleceriam um emirado na Península Itálica durante alguns anos.

Mas o poder Papal se tornaria forte exatamente pelas guerras e pela confusão gerada pelos sucessivos povos que iam e vinham pela Itália. No fim das contas, o Papa resolvia questões dinásticas e disputas políticas, agindo como um verdadeiro embaixador de assuntos estrangeiros para cada um dos reinos europeus. Sua bênção instituía ou destruía monarcas, e a fé na Igreja manteve certa coesão numa época em que a Europa mergulhava em caos e disputas mesquinhas. 

Divisão Política da Europa do século XVIII
Os Estados Pontifícios foram formados a partir de várias terras e regiões que iam de Roma até a fronteira com a República de Veneza, e surgiu oficialmente a partir do século VIII, sob a proteção (dominação) do Rei Franco Pepino, o Breve. O futuro Império Carolíngio teria uma relação direta com o Papado, de forma que o reino da França, originado do desmembramento Carolíngio, influenciaria na escolha do Papa até o século XIV, quando o cativeiro de Avignon acabou e o Papa voltou para Roma.

A história dos Estados Papais, portanto, é cheia de reviravoltas, e de mentirinhas também. O documento conhecido como “doação de Constantino” (desmascarado ainda durante a Idade Média) serviu durante algum tempo como legitimador da sua instituição. Seus domínios sofreram expansão e contração contínua, sendo a época do Renascimento o momento de maior esplendor. Sob a mão forte e imperiosa do Papa Júlio II, os Estados Pontifícios alcançaram o seu auge. Várias regiões foram anexadas, tornando-o forte e independente de auxílio estrangeiro. Júlio II também foi responsável pelo surgimento da Guarda Suíça, um corpo de elite preparado para defender o Papa sob qualquer circunstância, e que foi responsável pela salvação de Clemente VII durante o saque de Roma de 1527.

Então mesmo que isso pareça esquisito, o Papa era um soldado, um estadista, e um monarca absolutista de um vasto território europeu. Ele concedia títulos, cobrava impostos e tinha sua própria Corte, captando recursos e destinando-os a diversas empreitadas Roma afora. Eis, portanto, a origem da expressão “príncipes da Igreja”: os Bispos, Cardeais e Arcebispos são Príncipes desse Império Papal espalhados pelo mundo.

Mas apesar da força, do exército, dos recursos e do poder que o Papa tinha, a Idade Moderna lhe preparava uma surpresa. A Itália começou a ser reunida sob um único soberano, e pouco a pouco suas terras foram sendo engolidas pelo novo estado que surgia. Em meados do século XIX, os Estados Pontifícios se resumiam apenas a cidade de Roma, território este que seria tomado pelo Rei Vitório Emanuel em 1870, e o então reino Papal destruído. É claro que Pio IX, o Papa da época da conquista Italiana, não ficaria feliz com isso. Ele pediu ajuda ao mundo para reaver seus territórios, e não aceitou qualquer compensação pela destruição do seu reino.

Bandeira dos Estados Pontifícios
Somente no primeiro quartil do século XX, o papado aceitaria as compensações e faria um tratado com a Itália (Tratado de Latrão de 1929), em que a Igreja teria o Vaticano como um país independente, junto à autonomia de algumas regiões da cidade de Roma (propriedades da Igreja) e do território de Castel Gandolfo.

Hoje os Estados Pontifícios se resumem quase que exclusivamente ao Vaticano, e formam um país independente dentro da cidade de Roma. É o menor território independente do mundo, mas completamente dependente dos recursos vindos de fora de suas terras. Sua população de cerca de mil habitantes dispõe de moeda, banco e correio próprios. Os tesouros acumulados pela Igreja por dois milênios tornam-na incrivelmente rica, e sem dúvida é a única instituição em toda a história a sobreviver durante tanto tempo.

Os Papas da nossa época não têm a ínfima parte da força que seus predecessores renascentistas tiveram, mesmo que seu poder temporal ainda exista. É uma sociedade medieval que perdura no mundo moderno, e que por isso às vezes parece meio deslocada dentro dele. Mas mesmo que os críticos tentem deslegitimar o seu papel, o papado perdura como uma instituição indispensável para a fé do mundo católico contemporâneo. 

-- Thiago Amorim

Para saber mais:

"Declínio e Queda do Império Romano" - Edward Gibbon
"Basílica de São Pedro - Esplendor e Escândalo na Construção da Catedral do Vaticano" - R.A. Scotti
"Carlos Magno" - Jean Favier

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Barroco

Caravaggio - Pintura de Ottavio Leoni
Toda a tradição artística e cultural criada nos períodos Renascentista e Maneirista continuarão presentes no Barroco, embora essa nova corrente artística crie suas próprias formas de ver o mundo e apreciar a fé. Fruto da contra-reforma em Roma, mas também da ascensão do absolutismo em várias partes da Europa, o barroco se tornará um estilo arquitetônico próprio, que estará presente, a partir de então, em várias partes do mundo, inclusive a América, e até mesmo no longínquo Oriente.

Após a Reforma, a Igreja buscou diversas formas de se manter firme e poderosa novamente. Apesar de ter fracassado em diversas frentes, como na Inglaterra, por exemplo, os católicos triunfaram em vários lugares do norte da Europa, na França, na Itália e na Península Ibérica. Mas os tempos de Papas libidinosos e, até mesmo criminosos, haviam passado. A Igreja conseguiu reformar-se, diminuindo as despesas e as orgias papais.

O momento histórico, entretanto, exigia uma nova forma de mostrar a fé e glorificar a Deus, numa tentativa de transformar os devotos em verdadeiros súditos de Roma. E a melhor forma encontrada para a realização desse ideal pelos artistas barrocos é a teatralização e a espetacularização da própria fé.
A captura de Cristo - Caravaggio
A pintura da época experimentará, através das obras de Caravaggio, essa primeira fase de aprofundamento das sensações. O maneirismo já havia iniciado o processo de teatralização das cenas representadas, inclusive adicionando pessoas comuns aos temas realizados. O Barroco, entretanto, avançará sobre os limites maneiristas, aliando teatralização, realismo e sensualidade. Caravaggio pintará temas religiosos com profunda crueza e realismo, chocando a sociedade da sua época.

Mas o passo já estava dado. O Barroco triunfaria como modelo artístico predominante no século seguinte, trazendo para todos os setores da sociedade sua forma teatral e sensual. As obras artísticas não mais retratarão apenas os ricos e poderosos, mas também pessoas comuns, como plebeus, servos e ajudantes. O próprio Caravaggio utilizará em muitas das suas obras pessoas comuns como modelos para a Virgem Maria, os anjos, santos e o próprio Redentor da humanidade. As diversas obras realizadas em Roma no período são exemplos diversos dessa nova forma de enxergar o mundo.

Na arquitetura, modelos não faltam. A Basílica de São Pedro, a obra que causou a discórdia cristã, é um dos exemplos mais grandiosos da arquitetura barroca religiosa. Apesar de a obra ter avançado do Renascimento até o fim do período barroco, seu interior foi decorado quase que inteiramente sob esse estilo arquitetônico. As diversas estátuas, nichos, “apetrechos e penduricalhos” que enfeitam a basílica deixam qualquer visitante boquiaberto. E o que é mais impressionante, tudo soa perfeitamente harmonioso, mesmo que num caos de elementos decorativos.

Baldaquino de bronze - Basílica de São Pedro
O altar-mor, o baldaquino, a nave central com seus nichos e estátuas colossais, formam um conjunto tão bem acertado, tão profundamente místico e teatralizado, que parecem diminuir a proporção magnânima da basílica. Os “espectadores” que se prostram diante do enorme colosso de bronze têm uma visão enquadrada da Glória de Bernini no altar ao fundo. É como se o arquiteto tivesse colocado o imenso dossel de metal ali, apenas com a intenção de emoldurar o fundo fantástico da construção. O Baldaquino serve também como elemento de conexão entre o piso da basílica e a gigantesca cúpula cem metros acima, sem o qual o espaço ficaria completamente desconectado do resto do conjunto.

Imaginar proezas tão incríveis pode parecer difícil, mas os artistas barrocos conseguiram realizar obras perfeitamente realistas e emocionantes, utilizando para isso de ângulos diversos, formas elípticas e a conexão entre os objetos existentes nos ambientes. Cada estátua presente no local está relacionada à seguinte. Não existe elemento solto ou perdido, todos são conectados entre si. E essa é uma característica presente em todas as obras barrocas.

Praça e Basílica de São Pedro - Vaticano
A Praça diante da Basílica é outro exemplo extraordinário. Terminada a fachada, São Pedro pareceu extremamente pesada para quem a contemplava de fora. A solução encontrada para minimizar esse efeito foi transformar a praça num gigantesco elemento elíptico (o local antes era um imenso retângulo), que com a colunata grandiosa, encimada pelas 140 estátuas de santos e mártires, formam um abraço gigante sobre os devotos. Mas para os desavisados há também um elemento teatral nesse lugar. O escorço, tão conhecido pelos gregos e usado em grande escala pelos renascentistas, dá aqui o ar da graça novamente.

As colunas gigantes não estão centralizadas de acordo com o obelisco localizado no centro da praça. Isso foi feito para tentar disfarçar a diferença de dois graus entre o obelisco e a nave de São Pedro. No ponto em que os dois braços da colunata se encontram com as alas laterais que levam até a entrada da igreja, foi possível cortar o efeito horizontal da fachada. O resultado é um abraço gigantesco nos devotos que ali se encontram, e um enquadramento perfeito para a Basílica ao fundo. A Via della conciliazione[1], logo antes da Praça Pio XII e da Praça da Basílica, maximiza esse efeito.

Mas o Barroco não irá apenas aparecer nas obras religiosas. A França de Luís XIV servirá de terreno para a construção e consolidação do Barroco em outras partes da Europa, fora da esfera de influência italiana. E as realizações ali presentes evidenciarão mais uma vez as enormes transformações pelas quais a sociedade européia passava; o surgimento de um novo mundo centrado no absolutismo monárquico e nos mimos de um rei caprichoso e narcisista, que buscava através da pompa e da teatralidade consolidar seu poder sobre todos os plebeus, nobres e o próprio clero do seu país.
Galeria dos espelhos - Versailles
O palácio de Versailles é a representação em pedra do auge do absolutismo francês, e consequentemente do Barroco naquele país. Transferindo a corte de Paris para essa pequena vila, distante apenas alguns quilômetros da capital, Luís XIV construiu um mundo de sonhos e luxo jamais imaginados. Os súditos que o visitavam com certa frequência, ficavam chocados e extasiados com os objetos, construções, jardins e espetáculos que presenciavam. O Rei existia para governar, era a “cabeça” por trás do país. Nas palavras do próprio Luís XIV: “O estado sou eu”.

As formas arquitetônicas centralizadas, as enormes galerias recheadas de pinturas fantásticas, os diversos jardins, fontes, e até mesmo as roupas das pessoas que ali viviam formavam um espetáculo grandioso. O rei buscava, através do luxo, evidenciar sua importância e o seu poder. Todo esse esbanjamento era garantido pela exploração do povo da França, e no futuro traria sérios problemas para os nobres e para a coroa. As cabeças, literalmente, rolariam anos depois.

Mas o Barroco ainda atravessaria meio mundo antes de finalmente sucumbir. E suas características avançariam pela Holanda, pela Alemanha, pela América, e influenciariam até mesmo os maiores inimigos da fé cristã, os Turco-otomanos, no Oriente.

Grande abraço!

-- Thiago Amorim




[1]  Apesar da via ter sido projetada ainda no século XVII, só foi construída no século XX, a mando de Mussolini, como parte das compensações feitas à igreja pela perda de Roma e dos Estados Papais. Diversos arquitetos contemporâneos à obra não ficaram felizes pelo borgo existente no local ter sido removido para a construção da avenida.