sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Maneirismo

Papa Júlio II - Sua decisão de pôr abaixo a
antiga Basílica e erguer uma nova e fabulosa
construção, acarretou profundas mudanças
no cristianismo ocidental

Num dia de abril do ano de 1506, sob o ar pesado de Roma, um homem observava à colocação da pedra fundamental daquela que seria a maior Igreja do mundo. O homem era o Papa Júlio II, a igreja, a Basílica de São Pedro. O desenvolvimento e a construção desse gigantesco empreendimento envolveria os maiores artistas da Renascença, desde Bramante, passando por Rafael e culminando com Michelangelo, e avançaria ainda mais longe, atingindo o período mais proeminente do Barroco. O Papa jamais veria o prédio concluído, e nunca imaginaria o catalisador no qual ele se transformaria para um dos períodos de maior crise já enfrentados pela Igreja Católica Romana.

Quando da morte do Papa, a igreja tinha uma evolução pequena nas obras, mas gastos exorbitantes, cujos números não paravam de subir. Para garantir o prosseguimento da construção, Júlio II havia ordenado a venda de indulgências que garantiriam a salvação da alma daqueles que contribuíssem financeiramente para a obra. Essa ideia foi seguida pelo Papa seguinte, Leão X, um famoso perdulário dos recursos da Santa sé, cujo pontificado desastroso culminou com as famosas teses de Wittenberg escritas por Lutero.

Lutero - Suas ideias destruíram para
sempre a unidade do cristianismo
no Ocidente
Escandalizados com os absurdos cometidos em Roma, católicos em toda a Europa ficavam cada vez mais impacientes com o que estava acontecendo. Lutero, um monge alemão, tornou-se um símbolo da oposição à forma como a Igreja era conduzida, tendo obtido apoio de diversos príncipes, padres e reis europeus. Era questão de tempo até que uma mudança apocalíptica acontecesse. O resultado mais concreto dessa revolta generalizada contra Roma foi o saque de 1527, no pontificado de Clemente VII. Segundo relatos de cronistas da época, nem mesmo os bárbaros infligiram tantos males à santa cidade. Era consenso entre muitos que, após tantos problemas e imensa revolta popular, a Igreja estava fadada à destruição.

A saída encontrada pelos Papas posteriores aos Médici para enfrentar a crise ficou conhecida como a Contra-Reforma. A Igreja tentaria readquirir sua grandeza por meio de diversas ações e da instituição de um exército de padres devotos à sua causa, a Companhia de Jesus. A inquisição também foi reinstituída.

Mas as coisas não correriam tão bem como se imaginava. As ações de mudança na forma de conduzir a Igreja tiveram seus efeitos, mas não acabaram com o cisma. A partir de então, o Cristianismo ocidental se ramificaria em diversas religiões e seitas independentes entre si, longe do julgo de Roma: Calvinistas, Anglicanos, Luteranos. E essas são apenas algumas das novas doutrinas!

Esse novo período da história humana, que marca uma transição na forma de ver e enxergar o mundo levou o Renascimento a um momento de enrijecimento e, por fim, de transformação, que para muitos ficou conhecido como maneirismo. Era uma época de mudanças surpreendentes. A colonização do Novo Mundo, a ascensão dos grandes impérios coloniais e a destruição das culturas indígenas na América, são apenas algumas delas.

Outro ponto, tão importante quanto os destacados, foi a perda da certeza sobre o modo de ver o mundo. Um novo continente havia sido descoberto, com sociedades, ideais e religiões próprias. O mundo era redondo, e o sol não girava em torno dele! O homem começava a duvidar de si mesmo, da sua capacidade de compreender o universo. Esse momento de dúvida, desespero e agonia é representado pelas novas formas artísticas que surgem.
A última ceia - Tintoretto
Na pintura, as obras começarão a ficar cada vez menos centralizadas num personagem específico, e tomar ares confusos e desconexos. As diversas representações da Santa Ceia no período mostram Jesus Cristo perdido na multidão de personagens ali apresentados, atuando como “mais um entre outros”, como “um de nós”. Na obra “A ceia” de Tintoretto, podemos ver com perfeição esses elementos, já que o ambiente em que a refeição é realizada está repleto de personagens vagando pelo local, comendo e conversando, e com o profeta num plano menos destacado, mais próximo dos mortais que estão ali presentes.
A crucificação - Tintoretto
Até mesmo passagens bíblicas mais impactantes, como a crucificação, tomarão formas menos contemplativas. Veremos diversos personagens que parecem apenas passar pelo local, exércitos que se dirigem a um local qualquer, cenas que parecem continuar, mas que não são representadas completamente na obra produzida. A confusão de sentimentos, da fé e a perda de confiança no conhecimento humano não poderiam ser mais bem representadas.

No campo da escultura teremos mudanças significativas. As obras que, até então, mostravam imagens menos tensas, começarão a deslocar o ponto de representação para o clímax dos temas. Cabeças cortadas, sangue esvaindo, corpos dilacerados, deformados ou completamente dobrados. As personagens criadas beberão da “fonte de Michelangelo”, mas seguirão adiante com posições, formas e enquadramentos mais complexos, mais chocantes.

Villa Rotonda - Palladio
A arquitetura terá uma mudança também, principalmente no que tange à localização dos edifícios. A Europa do fim do Medievo e início do Renascimento legou às cidades suas maiores obras arquitetônicas. A Europa maneirista fará uma nova visita ao campo, com construções de casas, mansões e vilas de caça, de descanso e de passeio. A Villa Rotonda, em Vicenza, é um dos maiores exemplos dessa nova arquitetura, que utilizando o classicismo ao extremo, acaba por criar obras artísticas até mesmo onde antes seria impensado construí-las. Utilizando-se dos ideais vitruvianos e renascentistas, Palladio cria um modelo arquitetônico que será seguido por séculos. O homem burguês, ligado às áreas urbanas, começará a se deslocar ao campo novamente, mesmo que na maioria dos casos apenas para seu próprio divertimento. E o resultado de tantas transformações em todos os campos da cultura européia, culminará num novo estilo, o Barroco.

Grande abraço!

-- Thiago Amorim

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Renascimento

A criação de Adão - Capela Sistina

Tendo Roma caído sob as mãos bárbaras, ninguém mais tinha o controle da Europa. Um período obscuro e confuso tomou conta do continente, enquanto vários senhores tentavam dominar os restos do Império. Uma nova sociedade, uma nova forma de ver o mundo. E após séculos de confusão, algo se destacou entre os escombros: uma instituição que monopolizaria todas as esferas da vida européia na época, a Igreja Católica.

Vinda diretamente do Império Romano, tendo herdado seu legado, a Igreja é mais antiga que qualquer país Europeu. Durante séculos manteve seus próprios domínios, os Estados Papais, e de tão poderosa fazia estremecer até o mais rico dos reis.

Mas após séculos conturbados, que duraram aproximadamente até o ano mil, a Europa sofria novas reviravoltas. O comércio, as cidades e as Cruzadas trouxeram novas perspectivas. Uma espécie de reflorescimento econômico mexeu nos alicerces do poder, e o aumento da população e da riqueza permitiu o surgimento de novos personagens, os ricos comerciantes, que mais tarde seriam conhecidos como burgueses.
A Última Ceia - Leonado Da Vinci
Essa nova classe social que, ainda no tempo gótico, despontava na Europa, trouxe um caminho sem volta para o feudalismo: o seu fim. Livres da servidão, os comerciantes viajavam pela Europa, África e Ásia, entrando em contato com povos e lugares diversos. Foi apenas questão de tempo até que as ideias do passado mexessem com o presente, e mudassem completamente o futuro. Quando os escritos gregos foram redescobertos, tendo a burguesia se interessado apressadamente por eles, o homem voltou a questionar o universo.

Ainda no início do século XV, vários pensadores e artistas já se concentravam nos pequenos estados italianos, e o cerco e a queda de Constantinopla, em 1453, apenas apressou o processo. A ameaça islâmica no oriente trouxe muitos estudiosos gregos para a Itália, que em poucos anos tornou-se o novo centro da cultura européia, conduzindo o continente para o Renascimento artístico e cultural.

Costuma-se dizer que o renascimento trouxe mudanças significativas no modo de pensar europeu e, consequentemente, do mundo. Mas a verdade é que as mudanças sociais, políticas e econômicas que agitaram a Europa e o resto do planeta no período, é que mudaram o modo de ver o mundo. Após séculos de ressurgimento de cidades, de construções grandiosas para glorificar Deus e de grandes fortunas acumuladas através do rentável comércio local e internacional, o mundo europeu sofreu uma nova reviravolta.

Os escritos de Platão e Aristóteles, além, é claro, de diversos outros filósofos, pensadores e estudiosos gregos e romanos, possibilitaram aos europeus uma nova forma de olhar para o universo. O poder da Igreja talvez não fosse tão justo assim, e dedicar a vida à glorificação divina podia não ser tão interessante. A visão antropocêntrica tomava conta do pensamento do homem daquela época. Era ele, e não Deus, o centro do Universo.

Essa maneira de observar o mundo a partir do próprio homem é evidenciada na arte e arquitetura produzidas no período. Se o homem substitui Deus como agente atuante e transformador do mundo, sua percepção do real e do todo deve ser evidente em todos os campos do conhecimento. O homem racionalizava suas ambições e as transportava para suas obras.
Cúpula de Brunelleschi - Florença
A Cúpula de Brunelleschi tem um papel central nesse novo esquema. Mais de um século havia se passado desde o início da construção da catedral em Florença, tendo o seu povo se resignado pela incapacidade de realizar uma obra tão colossal. Vencidas as forças da natureza, e desafiando o próprio tempo, o arquiteto/escultor renascentista provou ser capaz de realizar o impossível. A cúpula será, a partir de então, um tema recorrente. O homem conseguiu dominar a natureza e colocá-la ao seu próprio serviço, ainda que nesse caso quisesse glorificar Deus.

Essa é, inclusive, uma das contradições do período. Apesar de ser uma época racional, Deus e os temas santos aparecem em grande parte das obras renascentistas, inclusive naquelas encomendadas pelos burgueses ricos. Ainda assim, a própria Igreja não exigirá apenas temas religiosos dos seus artistas, mas também pessoas, paisagens e situações diversas. E os artistas, por sua vez, rechearão as obras religiosas com temas pagãos.

O desenvolvimento da perspectiva possibilitará a realização dessas novas necessidades artísticas que surgem. Construções esquemáticas, planos centralizados, formas geométricas “puras”. Em cada obra observada pode-se encontrar elementos que confirmem isso. Da Vinci, com a Santa Ceia e Jesus ao centro; Michelangelo com a Sistina e o homem como cópia de Deus; Bramante e seu tempietto de formas simétricas e centralizadas. Todas as obras evidenciam essa harmonia, pureza e simetria almejadas.

Pietà - Michelangelo
A expressividade desse ser que agora se vê tão grandioso e chefe de si mesmo, o próprio homem, aparece ainda na pintura, escultura e literatura renascentistas. Na escultura, as diversas estátuas produzidas no período demonstram esse jogo de sentimentos que brotam da alma humana. A Pietà de Michelangelo é um desses exemplos, em que Maria, tão jovem e bela (apesar de provavelmente já ser uma senhora de idade na época da morte de Cristo), é retratada com um misto de dor e contemplação junto ao seu filho morto.

Na literatura um dos maiores expoentes do período é Nicolau Maquiavel, com sua obra “O Príncipe”. Nela o autor expõe a famosa ideia de que “os fins justificam os meios”, e que, portanto, os senhores, príncipes e reis podem, e devem, utilizar-se de quaisquer estratégias, por mais abomináveis que sejam, para alcançar seus objetivos.

Mas a revolução artística, que começou com os mercadores ricos da Itália e logo foi abraçada pela Igreja Católica e por todo o continente, iria em breve mudar a situação política da Europa. A reconstrução pela qual Roma passará no “quatrocento” e “cinquecento”, com a criação de diversos palácios, igrejas, praças, ruas e conventos, será absurdamente dispendiosa. Os custos para essa empreitada virá diretamente dos donativos oferecidos pelos fieis à Igreja. Paralelo a isso, panfletos, livros e ideias circulam livremente pelo continente. O resultado não podia ser diferente, e um problema jamais esperado pela Igreja surgirá: a Reforma Protestante!

Grande abraço!

- Thiago Amorim