sábado, 13 de agosto de 2016

Lutero e a Reforma Protestante - Consequências e a Contra-Reforma

Expansão Islâmica e o bloqueio do Mediterrâneo
Os anos correspondentes ao período Medieval trouxeram grande autoridade para a Igreja Católica. Enquanto a Europa permaneceu "isolada" do resto do mundo devido à ameaça turco-islâmica e ao inexorável bloqueio mediterrânico, as superstições, as lendas e o medo do inferno, fizeram da Igreja uma instituição extremamente poderosa. Seus poderes, apesar de sofrer alterações no decorrer da história, influenciavam desde a formação de estados, até a coroação de reis e imperadores. 

Toda essa influência lhe rendia enormes rendimentos e honrarias, de forma que quando do advento do período renascentista, ela se tornou a maior patrocinadora dos artistas da época.

A fortuna arrecadada durante anos e anos de exploração do campesinato europeu, entretanto, não seria suficiente para garantir a realização das obras e dos caprichos dos inúmeros pontífices católicos que governaram a Igreja durante o Renascimento. Assim, diversas guerras foram travadas de forma a adquirir esses recursos, tendo sido o Papa Júlio II, o que talvez tenha angariado maior fortuna e prestígio (embora muitos historiadores considerem Inocêncio III como o mais poderoso entre os pontífices).

Boa parte da renda da Igreja vinha de doações voluntárias dadas pelos fiéis, embora, cada vez com maior frequência, a venda de indulgências se tornava uma excelente fonte de renda para os interesses do clero. A partir do pontificado de Júlio II e, principalmente, após o início das obras de reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma, as indulgências ganharão status de dogma junto a igreja. Por uma quantia específica de dinheiro doado ao papado, era possível diminuir o tempo no inferno ou, se você fosse sabiamente generoso, garantir um lugar no paraíso.
Basílica de São Pedro, Vaticano, Roma
Aliado a esse comércio espiritual, havia ainda maneiras mais palpáveis de se alcançar uma graça. Em Roma, era possível comprar inúmeros objetos pertencentes aos santos e mártires da Igreja, inclusive do próprio Jesus Cristo. Mas não era apenas o comércio da fé que abalava o papado. Os inúmeros casos de filhos e amantes entre o clero eram comuns em Roma.

Foi nesse período de euforia religiosa, artística e econômica que Lutero chegou aos Estados Pontifícios. Ele vinha de um lugar menos afetado pelo Renascimento, os longínquos e “atrasados” estados alemães. Por ser um homem de fé quinhentista, tinha também muitas superstições, de forma que ao chegar em Roma cumpriu promessas, participou de rituais de adoração aos santos, anjos e mártires da igreja; presenciou os supostos milagres e ouviu as importantes instruções sobre como se devia utilizar as fabulosas relíquias dos santos ou ainda as lascas de madeira da cruz, bem como os espinhos da coroa de Cristo. 
Martinho Lutero
Seu choque, contudo, não poderia ter sido maior. Voltou para a Alemanha triste, desconfiado, arrasado. Passaria o resto da vida decepcionado. Assim, aprofundando-se nos seus estudos linguísticos, pode compreender melhor a palavra de deus, e interpretar a bíblia de maneira diversa daquela pregada pela Igreja.

As 95 teses de Winttenberg continham suas queixas contra as horripilantes práticas da igreja quinhentista. São Pedro (a basílica) seria uma aberração descabida, um ultraje à palavra de deus. O homem podia alcançar o paraíso por esforço próprio, pelo arrependimento, pela caridade. Muros de pedra e montanhas de ouro não serviriam para nada, apenas para garantir a supremacia do papado. Obviamente tal ultraje a figura do papado e a própria Igreja não passariam despercebidos. Lutero foi severamente perseguido e levado a julgamento perante o Imperador do Sacro-Império Romano-Germânico, Carlos V.

Apesar da pressão que sofreu para negar o que dizia e se desculpar com Roma, Lutero escapou da fogueira. Teve muita sorte, pois além de ter amigos poderosos que o podiam proteger, o ocupante do trono de São Pedro, o Papa Leão X era mais príncipe que guerreiro. Tivesse Lutero dado a bater em um Júlio II ou um Alexandre VI, teria um destino próximo ao experimentado por Savonarola, na rica Florença de outrora.
Lutero e as 95 teses de Winttenberg
Após um julgamento no qual foi expulso dos estados alemães, Lutero foi salvo por seu fiel amigo Frederico III, e ficou cerca de um ano longe do público, onde pôde traduzir a bíblia para o alemão. Esse feito garantiu que a palavra fosse levada para os mais distantes lugares, alcançando mais e mais povos por toda a Europa. Tendo o povo acesso ao que dizia a bíblia, foi cada vez mais difícil para a Igreja manter-se acima dos mortais. O papado enfrentou uma grande decadência, sendo cada vez mais desacreditado. Devido a divergências religiosas e políticas, milhares de pessoas morreram nas revoltas camponesas que se seguiram. Até mesmo Roma e o Vaticano foram saqueados pelos exércitos do Imperador Carlos V em 1527. O Papa, Clemente VII, escapou por pouco.

Esses eventos desencadearam uma nova maneira da Igreja perceber-se como guia espiritual do mundo. Entendendo que seu poder e influência diminuíam, o papado tratou de criar mecanismos para recuperar sua força. A Contra-Reforma, como ficou conhecida, reformulou completamente o catolicismo, criou a Companhia de Jesus, e estabeleceu novos paradigmas para a fé. Além disso, a arte, que desde o Renascimento havia adquirido grande importância junto ao povo, foi usada como instrumento catequizador e catalizador da fé, especialmente através do barroco.

São Longino (Longuinho) - Bernini, artista Barroco

Esse fantástico movimento artístico irá teatralizar os espaços de culto, criando momentos e emoções diversas para os seus espectadores. As igrejas serão decoradas com tantos detalhes e efeitos, que evocarão o próprio paraíso. O novo estilo artístico e arquitetônico irá se apropriar amplamente da perspectiva e da geometrização dos espaços para dar certo. O escorço, elemento muito utilizado pelos gregos para dar mais harmonia aos seus fabulosos templos de mármore, será levado à exaustão no barroco.

As igrejas estarão recheadas de anjos, santos, mártires e personagens bíblicos. Molduras gigantescas serão criadas a partir de elementos diversos, como o famoso baldaquino de São Pedro, em Roma, que transforma a belíssima cátedra basilical ao fundo, em um fabuloso quadro mural. O barroco também deixará marcas no panorama das cidades construídas ou reconstruídas à essa época. Grandes avenidas, geometrização dos logradouros, grandes espaços e áreas abertas, além do destaque dado a monumentos diversos pela cidade, fazem parte dos seus projetos. Apesar de ser um estilo artístico ligado à Contra-Reforma, o barroco será levado para os mais diversos lugares do mundo: França, Alemanha, América e até mesmo o longínquo oriente.

Baldaquino de Bronze da Basílica de São Pedro - Bernini
Uma obra prima do Barroco

Quanto a Lutero, sua vida tomará rumos bem diversos daqueles que se esperavam de um religioso católico. Apesar de não desejar que houvesse um cisma tão grande, com um racha tão profundo na Igreja, e de se martirizar pelos excessos causados pelas revoltas campesinas, o religioso não teve outra opção a não ser viver pregando o protestantismo pela Europa. Seu casamento com uma ex-freira, com quem foi muito feliz e teve vários filhos por sinal, acabou por afastá-lo de vez do catolicismo. As ideias luteranas sobre buscar a salvação através da fé perduram até os nossos dias.

-- Thiago Amorim 

Para saber mais:

MUMFORD, Lewis. A cidade na história – suas origens, transformações e. perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

PIRENNI, Henri. Maomé e Carlos Magno: O Impacto do Islã Sobre a Civilização Europeia. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2010 

PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Cortez, São Paulo. 2004

SCOTTI, R.A. A Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano. 2006

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Game Of Thrones - Fim da sexta temporada

A explosão do Septo de Baelor foi a grande cena do fim da temporada!
chegamos ao final de mais uma temporada de Game Of Thrones. Eu nunca falei sobre a série aqui no blog, mas sou super fã dos livros e da versão da HBO para a TV. Como ando postando muito pouco por aqui nos últimos anos, resolvi ressuscitar o blog com uma análise do último episódio da sexta temporada. Espero manter uma frequência mais assídua de postagens a partir de agora também. 

Então vamos lá! Aliás, antes de começarmos, aviso que aqui vai ter muitos SPOILERS. Se você não acompanha a série ou não quer saber de nada por não ter visto todos os episódios ainda, pare por aqui!

O décimo episódio da sexta temporada foi simplesmente perfeito! Muito triste pelos Tyrell... Mas eu bem que desconfiava que a Margaery ia se dar mal e a Cersei se livrar de tudo de maneira pirotécnica. Interessante a serenidade de Olenna Tyrell diante dos fatos. Atriz fantástica e personagem mais incrível ainda. Outro ponto maravilhoso desse episódio foi a trilha sonora... O som "crescente" que vai do começo, com a chegada das pessoas para o julgamento, até a explosão, criou o clima perfeito para a cena de destruição do Septo!
Sobre a situação no norte os trailers conseguiram enganar a todos, com uma possível "rainha do norte" na pessoa da Sansa. Ela abriu caminho para o Jon sem pestanejar e acabou com os planos do Mindinho de conquistar o trono com o Vale e o Norte. Foi legal o lance da "Torre da Alegria" confirmar Jon como filho da Lyanna e do Rhaegar, até porque ninguém aguentava mais esperar por isso. Rsrs. 
Em Dorne todo mundo já sabia que o Varys ia firmar um acordo para a chegada da Dany, a surpresa foi envolver os Tyrell mesmo.
Sam finalmente chegou a VilaVelha. Que cenário lindo, meu Deus! Os produtores se superam a cada episódio. O lance da Arya nas gêmeas não me deixou feliz. Eu preferia uma morte mais terrível para toda a família Frey, e não só para os três mortos. Mesmo assim fiquei feliz do velho Walder ter jantado a carne dos filhos e ter morrido com a garganta cortada, exatamente como a Catelyn (minha personagem preferida da série) morreu.
E Daenerys, bem, ela sempre resolve tudo, sempre vence, mas a cena dos navios rumo a Westeros (dessa vez realmente indo para Westeros) foi magnífica, embora meio repetitiva, mostrando a força da frota que vai levar problemas para os Lannisters. Esses últimos, por sinal, estão fritos. Só sobraram as Terras Ocidentais e as Terras da Coroa ao lado deles. Cersei não terá um reinado longo, perderá tudo em breve.
Agora é aguardar mais um ano.
Sofrendo desde já! Rsrs
E é isso. Espero aparecer por aqui com mais frequência. Grande abraço!
;)


terça-feira, 9 de junho de 2015

O dia do juízo final


Naquele apocalíptico dia, diante dos 130 bilhões de almas que adormeceram e esperaram pacientemente durante milênios, eis que o Rei dos Reis, o Pai do Mundo apareceu diante de todos!
Foi um choque sem precedentes...

Uns viam uma mulher com muitos braços, outros um velho com barba, alguns uma bela senhora negra coberta de diamantes, e houve até quem visse um elefante com um chapéu engraçado. A agonia foi generalizada. Afinal de contas, quem era aquele e o que seria de cada um que ali se encontrava?
Deus-Pai sabia que precisava agradar a todos, e por isso tomou a seguinte decisão: não julgaria ninguém, não condenaria ou salvaria qualquer um dos finados, mas daria de presente para eles tudo aquilo que pregaram e defenderam durante a vida.
Dessa forma, muita gente escapou da condenação eterna pelo simples fato de não acreditar nela. Vejamos os fatos:
Os ateus foram os primeiros a se salvar! Deus-Pai viu bondade e boas ações na maioria daqueles corações, riu da dúvida que despertara em todos, e lhes garantiu passagem ao paraíso sem perguntas ou protestos; foi a única solução que encontrou, pois apesar daquelas pessoas não acreditarem numa vida eterna, haviam pregado o bem para todos. Além disso, as almas eram eternas, deram trabalho para ser fabricadas e Deus-Pai não ia simplesmente jogar seu trabalho, tão bem acabado, fora. Assim, foram salvos!
Boa parte dos Cristãos piedosos receberam guarida também, sendo salvos sem protestos. O problema é que, infelizmente, muitos haviam pregado sobre o fogo eterno para quem pecasse. Como de "pecadores" a Terra está cheia, lá se foram muitos Cristãos para o fogo eterno, afinal, eles pregaram isso durante toda a vida, seria injusto que recebessem algo diferente.
Os Cristãos homofóbicos tiveram um fim terrível. Alguns eram gays enrustidos, e como pregavam a morte e o esquartejamento dos gays durante a época em que viveram, foram jogados no calabouço eterno, sentados no colo de satanás e tomando banho de ácido com enxofre. Nem um deles conseguiu alcançar o paraíso, afinal, buscaram o inferno durante a vida inteira.
E assim seguiram o mesmo caminho todos os religiosos, não importando sua fé ou crença. Quem pregou o bem foi para o paraíso; quem pregou o inferno, lá se instalou rapidinho.
Os últimos a terem seus destinos decididos foram os gays. A galera chegou animada, com confete, purpurina, muita dança e alegria. Deus-Pai achou aquilo fantástico, e resolveu que melhor decisão não poderia ser tomada: sem pestanejar, seguiu atrás do trio com a rapaziada, rumo aos andares mais altos dos céus. Era daquela gente que ele se orgulhava, e por isso para junto de si os carregava.
O dia do juízo final, que não era eterno, logo chegou ao fim. Os anjos, embasbacados, presenciaram uma grande procissão de mão dupla:
Extremistas desceram a ladeira para o andar de baixo e enfrentaram a sua sina; a galera da Parada subiu com confetes e muita purpurina para o andar de cima.
Deus-Pai riu, “e viu que aquilo era bom”...
-- Thiago Amorim

sábado, 7 de março de 2015

O Salão de Âmbar do Palácio de Catarina

Um dos maiores roubos da história da arte, e um dos maiores mistérios da Segunda Guerra Mundial. Que fim teria levado o fantástico salão de âmbar do Palácio de Catarina? A história ainda não nos deu uma resposta...

Catedral de Nossa Senhora de Kazan - São Petersburgo
O Império Russo, a seu tempo, foi um dos mais gloriosos, suntuosos e ricos estados do mundo. Compreendia dimensões continentais, e expandiu-se quase sem fim pela a Ásia e pela Europa, ameaçando e absorvendo estados soberanos por todos os lados. Toda a cobiça imperialista da Rússia rendeu fabulosos tesouros, que se traduziram na construção de imensos palácios, cidades e vilas imperiais.

Entre as mais famosas dessas realizações, destaca-se o conjunto arquitetônico da cidade de São Petersburgo e arredores. Construída por Pedro, o Grande, às margens do Rio Neva e do Mar Báltico, com a intenção de integrar o país à Europa e modernizar o estado russo, a cidade tornou-se a nova capital imperial em detrimento da velha Moscou. O Czar foi bem sucedido e em anos posteriores à sua morte São Petersburgo tornou-se uma das mais importantes e influentes cidades do mundo.
Palácio de Catarina - Tsarkoe Selo, arredores de São Petersburgo
Entre os diversos edifícios construídos nos seus arredores, destaca-se o Palácio de Catarina. Reformado e ampliado pela famosa soberana russa, a edificação em estilo rococó, foi construída com todo o luxo que se podia desejar à época. O resultado aproxima a realidade aos contos de fada: Salões cobertos por telas e pinturas murais de grandes artistas, tetos fabulosos em ouro e gemas preciosas.

Mas o grande atrativo do palácio, apesar de todo o luxo que o englobava, estava na sala de âmbar. Esse aposento tinha paredes cobertas por placas do valioso e raríssimo âmbar, e foi um presente do imperador da Prússia Frederico Guilherme I para o imperador Russo Pedro I. Segundo se conta, Pedro I, em visita oficial à Prússia em 1716, ficou fascinado pela câmara, que era então instalada no palácio de Charlottenburg. Frederico, com vistas a agradar o imperador russo e selar um pacto contra a Suécia, o presenteou com o fabuloso aposento, mandando que o desmontassem e o enviassem, em 18 caixas, para o Palácio de Inverno de São Petersburgo.
Foto do Salão de Âmbar Original - Palácio de Catarina, 1931
Em 1755 o salão, a mando de Catarina, foi trasladado para o palácio de verão em Tsarkoe Selo, e montado em uma sala preparada para recebê-lo. Recebeu adições em anos posteriores, chegando ao século XX com pelo menos 55 metros quadrados de âmbar em diferentes variações de tom e cor, além de generosas porções de gemas preciosas. O salão de âmbar foi utilizado por diferentes Czares como sala particular, de descanso e de reuniões. Sua beleza e qualidade artística lhe rendeu fama por toda a Europa, atraindo olhares cobiçosos de todos os lugares.

Um fato do destino, entretanto, iria causar o desaparecimento desse imenso tesouro. Durante a Segunda Guerra Mundial, as tropas da Alemanha Nazista chegaram aos arredores de Leningrado (São Petersburgo teve o nome alterado após a revolução de 1917 para homenagear um dos seus líderes, Lênin, e passou a se chamar Leningrado), cercando-a por vários meses. Apesar de não conseguirem invadir a cidade propriamente dita, os nazistas se apoderaram das imensas mansões e palácios dos Czares nas vilas e arredores da cidade. Entre esses palácios, estava o de Catarina, que foi ocupado e teve boa parte dos seus tesouros roubados e enviados de trem para a Alemanha.

             
            Detalhe da restauração em âmbar
Trabalho de restauração do Salão de âmbar

O salão de âmbar, que num primeiro momento da ocupação permaneceu escondido pelos curadores e funcionários do palácio, foi descoberto e imediatamente desmantelado, sendo enviado para a cidade de Konnigsberg. Lá foi remontado em uma espécie de museu dos objetos roubados pelos nazistas.

Com o avançar da guerra e a iminência da derrota, os alemães começaram um trabalho sistemático de destruição de todos os lugares ocupados. Assim, os grandes objetos que não puderam ser levados dos fabulosos palácios russos, foram completamente pilhados, arrasados e incendiados, numa fúria irracional. Foi realmente um momento sombrio e trágico para a história da arte e da arquitetura.

O salão de âmbar, por sua vez, estando em Konigsberg, desapareceu, tornando-se uma incógnita histórica. Afinal, o que teria acontecido com essa fabulosa peça de arte? Há teorias diversas sobre o seu fim. Alguns dizem que tudo foi desmontado e escondido em algum lugar no interior da Alemanha, outros sugerem que tenha sido destruído pelo bombardeio aliado que reduziu a cidade (e o museu) a cinzas, e ainda aqueles que sugerem que o salão foi levado num navio que acabou naufragando no mar Báltico. A teoria mais extrema, entretanto, sugere que Stálin pregou uma peça nos alemães, escondendo a verdadeira sala de âmbar e deixando que os nazistas roubassem uma cópia falsa. Nos últimos setenta anos tem havido uma verdadeira caça ao tesouro pela Europa em busca do salão, embora todas as expedições tenham malogrado. Não é à toa que existam tantas teorias da conspiração a seu respeito.  

Salão de Âmbar após a restauração
Felizmente a história não termina assim. Os palácios de São Petersburgo foram reconstruídos em anos posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de resgatar o passado glorioso da Rússia. O Palácio de Catarina e o Salão de âmbar também foram restaurados graças a fotos e objetos que sobreviveram ao furor nazista. Esse novo salão demorou 25 anos para ser construído e foi inaugurado em 2003. O salão original valeria, em valores atuais, cerca de 150 milhões de dólares.

É um belo tesouro, para um bela caçada, não é mesmo?

-- Thiago Amorim

Para saber mais:

http://www.smithsonianmag.com/history/a-brief-history-of-the-amber-room-160940121/?no-ist

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Catedral de Colônia

Catedral de Colônia - Início do Século XX
Famosa pelas suas torres gêmeas gigantescas, e pelos fabulosos tesouros que contém, a Catedral de Colônia é uma das maiores e mais antigas igrejas do mundo. Sua construção iniciou-se por volta do século XIII, no auge do período gótico, e estendeu-se por quase seiscentos anos.

A Catedral foi amplamente inspirada na de Amiens, na França, e segue o estilo gótico. Comum na Europa medieval, o estilo gótico foi empregado em vários lugares do continente, estando a França e a Alemanha na vanguarda do estilo. Fruto do “casamento” entre técnicas européias e orientais de construção, o gótico se estabeleceu como uma nova forma arquitetônica no período medieval, e por isso se transformou no seu símbolo. O curioso é que apesar de ser símbolo do medievo, o gótico na verdade marca início do período final dessa fase da história mundial.

As catedrais góticas, assim, fazem parte do caminho que levou a um evento que logo, logo, mudaria a face da Europa e do resto do mundo: O Renascimento. O ressurgimento do comércio, das cidades e da vida urbana, acarretou num acúmulo de riquezas por parte de comerciantes de toda a Europa. A grande instituição dominante no período, a Igreja Católica, recebeu grande parte desses recursos financeiros, tornando-se verdadeiramente rica.

Catedral durante os bombardeios da II Guerra Mundial
A construção de Catedrais góticas, que em alguns anos se tornou uma verdadeira febre na Europa, tinha, entretanto, uma intenção maior por trás da contemplação do divino: expor a riqueza de uma cidade.

E assim foi feito em Colônia. Cidade antiga, fundada pelos romanos, Colônia tinha importância estratégica e foi objeto de disputas entre franceses, alemães e as poderosas dinastias européias. A cidade ainda foi incendiada pelos vikings no século IX, e ganhou grande importância após o século XII. No século XIII a catedral começou a ser construída, no local de uma mais antiga que havia sido destruída.

Relicário dos três Reis Magos
A construção foi consagrada a São Pedro e a Santa Maria, tendo levado pelo menos seiscentos anos para ser concluída. Suas torres gêmeas têm 157 metros de altura cada uma. A Catedral guarda ainda um tesouro inestimável para a fé Cristã: as relíquias dos três reis magos. Elas foram trasladadas por Frederico Barbarossa pela ocasião da ocupação de Milão. Essa última cidade, por sua vez, as adquiriu de Constantinopla em séculos anteriores. Hoje os restos mortais dos itinerantes magos que visitaram Jesus no seu nascimento - Gaspar, Melquior e Baltazar - estão dispostas em um gigantesco ataúde de ouro e gemas preciosas especialmente projetado para guardá-los.

Durante a segunda guerra mundial, a igreja servia como ponto de referência para os ataques aliados à Alemanha, e graças a isso ela não foi destruída pelos bombardeios. Ainda assim, catorze bombas atingiram a Catedral durante os ataques, tendo a igreja sobrevivido por pouco, a essa obscura passagem da história. 

-- Thiago Amorim

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Ponte Golden Gate

Ícone de San Francisco, a Golden Gate é uma das mais antigas e mais belas pontes da era moderna. Sua construção se iniciou no início da década de 1930, e foi completada em 1937. Era então a maior ponte do mundo, e imediatamente se transformou num dos cartões postais mais fotografados dos EUA.

O estreito de nome homônimo é a porta de entrada para a Baía de San Francisco, e está localizado sobre a instável falha de San Andreas. Os planos para a construção de uma passagem sobre o local datavam do início do século XX, logo após o grande terremoto de 1906, mas a tecnologia e o financiamento gigantesco só surgiram após os planos do Presidente Roosevelt para vencer a Depressão dos anos 1930. A ponte deveria ligar as regiões vizinhas da cidade e garantir o desenvolvimento econômico da região.
O projeto foi entregue a um alemão sem experiência em projeto de pontes, Joseph Strauss, mas que o concebeu magistralmente, edificando-o em tempo recorde para a época: quatro anos (o projeto de engenharia e arquitetura, entretanto, demorou vários anos até ser finalmente concluído). Suas preocupações com a segurança dos funcionários da construção ficaram famosas e garantiram um número muito pequeno de mortes durante o processo, se comparado com empreitadas parecidas na época.

Apesar de inicialmente ter sido pensada por Strauss como uma ponte em modelo cantilever, com duas seções encostadas em cada lado do estreito e ligadas por um elemento suspenso ao centro, o design final acabou sendo a ponte pênsil. Essa escolha garantiu o apoio do exército (que a princípio se mostrou bastante contrário à construção devido à possibilidade de bloqueio do estreito), mesmo que ainda houvessem surgido discordâncias a respeito da cor empregada na ponte.

Elementos em estilo Art Déco
compõem a estrutura da ponte
A ponte custou aos cofres públicos cerca de trinta e cinco milhões de dólares. A cor laranja foi escolhida de forma a garantir a visão da ponte mesmo durante os períodos em que a intensa neblina, comum no estreito, envolvesse a gigantesca estrutura de aço. Seu formato a tornou um cartão postal instantâneo, com elementos em estilo Art Déco, e inspirou a construção de diversas outras pontes no mundo.

Foi até 1964 a maior ponte pênsil do mundo, e durante muitos anos a mais alta estrutura do oeste dos EUA. Suas dimensões ainda impressionam nos dias de hoje. Ela tem um comprimento de quase três quilômetros, sendo 1.280 metros apenas para o tabuleiro central. Sua altura é de 227 metros e tem capacidade de receber tráfego de 100 mil veículos por dia. Uma das coisas mais impressionantes ligada à ponte é o fato dela ter sido construída exatamente sobre a falha geológica de San Andreas, e resistido durante todos esses anos aos constantes movimentos de terra causados pelos terremotos, muito comuns na Califórnia.

A ponte tem sido constantemente restaurada, com substituição de peças e cabos antigos. A pintura também é mantida impecável, de forma a garantir a segurança da estrutura. Foi eleita uma das sete maravilhas da engenharia mundial, e um recente projeto de restauração está em curso, de forma a permitir que a ponte permaneça em serviço durante vários anos ainda
Nevoeiro encobre a Golden Gate
A fama da Golden Gate faz com que ela apareça constantemente em obras cinematográficas e peças publicitárias. É uma das estruturas mais destruídas nos filmes-catástrofe Hollywoodianos. Na vida real, também tem um uso trágico, já que foram registrados mais de 1.200 suicídios no local desde a sua inauguração.


 -- Thiago Amorim

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Metrópolis e as correntes urbanísticas dos séculos XIX e XX

Em um mundo futuro (ou na visão do que seria o futuro no distante ano de 1927) uma sociedade é marcada pela abundância para alguns e a miséria extrema para outros. Enquanto os operários vivem marginalizados, excluídos e explorados em um submundo de sofrimento e abandono social, uma minoria abastada desfruta das delícias de um mundo de conto de fadas: Metrópolis, a grande cidade do futuro, a nova torre de babel, controlada pelo megalomaníaco industrial, Joh Fredersen, que traz em seu âmago as agruras da industrialização nas sociedades modernas. Parece ser o destino de toda a criação humana, de toda a condição de exploração existente e ainda por existir. Tornada rica, incrivelmente poderosa, e assentada sobre a miséria de milhões de operários, a cidade reluz como o farol do desenvolvimento, do crescimento econômico, da riqueza sem fim.

Apesar de a história se passar num futuro distante (que hoje é bem próximo de nós, já que no filme o ano é 2026) a sociedade mostrada em Metrópolis não está tão longe assim, nem é tão inalcançável. É na verdade uma caricatura do mundo de meados do século XIX e início do XX. É a Nova York, a Londres, a Paris, a Viena, a Berlim: As cidades-sede do capitalismo financeiro mundial, e também da miséria mundial naquela época. E assim, como essas famosas e gigantescas urbes modernas, a cidade se divide em dois mundos, dois espaços de convivência, de trabalho e de poder distintos.

Sobre a superfície, em edifícios reluzentes e gigantescos, rodeados pelo jardim dos filhos, está a elite abastada ao lado de seus funcionários mais próximos. Essa classe, a dos grandes industriais e financistas capitalistas, dispõe de uma excelente infra-estrutura urbana, com maravilhas arquitetônicas e marcos urbanísticos. A metrópole da superfície nos lembra os planos traçados para as grandes capitais do mundo, com teatros, estádios, largas avenidas e gigantescos complexos esportivos. É também a cidade dos automóveis, os quais são utilizados em larga escala para movimentação dentro da cidade.

A Metrópolis dos ricos aproxima-se assim dos frutos das “maravilhas” da corrente City Beautiful, que se espalhou pelo mundo do início do século XX até os anos 1940. As reformas urbanas promovidas por esse movimento, no geral, trouxeram melhorias para os centros urbanos, mas esqueceram dos oprimidos pelo sistema, os colocando às margens das cidades. Os planos de Speer para a Berlim de Hitler se assemelham tanto a Metrópolis, que é como se o arquiteto tivesse se inspirado livremente nela.

Metrópolis ainda bebe da corrente progressista, de uma forma que deixaria Le Corbusier fascinado. Grandes torres se projetam no centro da cidade; vias e avenidas destinadas a um grande fluxo de veículos são encontradas como navalhas a cortar toda a zona urbana. Na cidade ainda pode-se ver poucos marcos do passado, como se a antiga cidade ali existente houvesse sido arrasada, e substituída pelos espigões de concreto, aço e vidro.

Plan Voisin - Corbusier
O “Plan Voisin” de Corbusier propunha uma situação parecida para a Paris de sua época, com a demolição do passado arquitetônico da cidade, e a substituição do seu tecido urbano por largas avenidas e arranha-céus modernos. Nesse plano, poucos dos marcos arquitetônicos do passado de Paris sobreviveriam como a Catedral de Notre Dame e o Arco do Triunfo. Em Metrópolis, o único vestígio do passado é a gigantesca Catedral da cidade e uma casa esquecida, onde mora o cientista criador do robô que substituirá Maria e trará o caos para as ruas da cidade.

O zoneamento, característica forte do modelo urbanista progressista, como nos projetos e ideias de Garnier, por exemplo, é também parte integrante da cidade, que é dividida em zonas específicas: de diversão, de esportes, industrial, moradia e serviços. Dentre essas zonas há uma que está completamente dissociada da ideia do que seria conforto urbano. Metrópolis tem uma zona subterrânea, lugar destinado à moradia da mão-de-obra barata que sustenta o sistema sobre o qual a cidade está assentada. Ela soa como uma metáfora para o submundo de privações enfrentado pela classe trabalhadora.

Para o movimento pré-urbanista sem modelo, esse local é o ponto em que se encontram a miséria e a degradação humana, o local da noite apavorante. Os indivíduos que ali residem experimentam todo o tipo de horrores, inclusive a negação de si mesmos. A situação de vida dos operários é absurda. A ditadura das máquinas, da jornada de trabalho, só não é pior que a poluição a qual estão sujeitos. As enormes engrenagens do gigantesco maquinário parecem um antigo Deus furioso, a receber sacrifícios humanos para a própria glória. 

Ali não existem pessoas, mas sim uma massa compacta e repetitiva, em traje eterno de trabalho. As terríveis condições de vida e trabalho a que essas pessoas estão sujeitas, são mostradas durante o decorrer do filme, e ainda mais específicas na fala de um personagem: “Pai, essas dez horas nunca acabam?”. Os acidentes são comuns, mas tratados com displicência pelos diretores e pelo próprio Joh Fredersen. A massa de trabalhadores está sujeita a ser substituída imediatamente para o caso de haver problemas, o que a torna completamente dependente e submissa aos desmandos do grande industrial.

Os sete pecados capitais
Em um ambiente tão degradante, é de se esperar que uma revolução acontecesse. Mas a semente de revolta que Marx gostaria de presenciar, surge de forma tímida e pouco convincente em Metrópolis. Os trabalhadores não têm consciência de classe, e são controlados pelas ideias de uma “profetiza” de nome Maria. A moça diz que o mundo é injusto porque “mãos e a cabeça não se entendem”, e fala sobre a vinda de um mediador que mudará tudo: “o coração”.

A exploração é retratada no filme de forma realista, evocando o sofrimento e a quase escravidão vivida por todos. Metrópolis é comparada a Torre de Babel e ao seu infeliz destino, mas não parece evocar uma revolução como a feita, no decorrer do próprio filme, pelos escravos que construíram a malfadada torre. Os trabalhadores, portanto, são vistos como incapazes de lutar por novas condições de trabalho. Eles deveriam esperar pela redenção vinda de um “mediador” que mudaria tudo e poria melhores termos entre patrões e empregados. O mediador surge na pele do próprio filho de Joh Fredersen, que se apaixona por Maria e experimenta as privações dos trabalhadores na indústria.

O filme ainda explora os perigos da ciência. O cientista maluco, sedento por vingança, que quer punir Frederser por lhe ter roubado o amor da sua vida: Hel. A criação de um robô, aquele que poderia substituir os trabalhadores, é utilizada de forma nefasta por Fredersen e pelo cientista, na tentativa de confundir e ludibriar os trabalhadores. Maria é substituída e o caos se afigura diante de todos.

Mais uma vez o filme se mostra “morno” diante da revolução. As primeiras greves e revoltas de trabalhadores se caracterizaram pelo ataque às máquinas e fábricas, pois todos acreditavam que ambas fossem a causa do desemprego e das cruéis condições sociais as quais estavam submetidos. Em Metrópolis a história se repete, mas só até certo ponto: os trabalhadores são incitados a fazer isso pela “Maria robô”, e não se revoltam contra o patrão. Eles o temem; não estão dispostos a brigar diretamente com ele. O ataque às máquinas soa como uma tentativa desesperada de demonstrar força, mas tudo isso se esvai ao se depararem com o industrial.

Assim, a semente da revolta morre com o confronto cara a cara entre os trabalhadores e o empregador. O mediador, o filho de Joh Fredersen, consegue fazer os lados dialogarem, se aproximando das ideias socialistas utópicas de Fourier, e que jamais funcionariam no sistema Capitalista, visto que o mesmo precisa explorar a mais-valia dos trabalhadores para continuar existindo.

Há ainda uma mensagem mais obscura sobre a revolta: os próprios trabalhadores levam o perigo para as suas casas devido à revolução, com a inundação e destruição de suas moradias, num claro sinal de que a revolução traria mais perigo que o que todos já experimentavam.


No fim das contas, o filme transforma o próprio industrial em um refém da ciência, e passa uma mensagem vazia de revolução. Não há lideranças entre os trabalhadores, e sim peões num tabuleiro de xadrez; o rei continua manipulando a todos!

-- Thiago Amorim

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Movimento Moderno

Palácio da Alvorada - Brasília
O movimento moderno foi um daqueles eventos que mudam completamente o rumo da humanidade. De repente, em diferentes lugares do mundo e quase ao mesmo tempo, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, o teatro, o design, a literatura, sofreram uma mudança de paradigma sem precedentes. O modelo tradicional de cultura sofreu um choque tremendo, recebendo grande rejeição, e, finalmente a arte começou a ceder espaço para o abstracionismo.

Apesar de parecer surpreendente que tudo isso tenha acontecido tão “de repente”, a situação na Europa e no resto do mundo à época era mais que propícia para essa sucessão de acontecimentos. A Revolução Industrial havia trazido um progresso técnico como jamais havia sido visto, e a ascensão da burguesia, e consequentemente do capitalismo, trouxeram recursos que podiam financiar os novos artistas e intelectuais daquela época, inaugurando uma nova forma de mecenato. Aliado a tudo isso, a fotografia, o vapor, o telégrafo e as ferrovias tornaram-se um grande divisor de águas. 

Durante séculos, as ideias dos homens eram difundidas entre pessoas que se conheciam, ou que conviviam na mesma região. Isso evitava um campo maior de ação para ideias vanguardistas, e inibia a produção artística e cultural a pólos de atração específicos. Os novos meios de difusão de notícias, e de comunicação, permitiram um maior contato entre pessoas de diversos lugares do mundo; o vapor e as ferrovias propiciaram as viagens necessárias para a troca de ideias e a propulsão da internacionalização das vanguardas artísticas.

A fotografia foi um dos passos mais importantes para a mudança da arte. Com o realismo das fotos, a arte sofreu uma grave crise de identidade, e entrou num momento conturbado. A saída encontrada pelos artistas para superar essa crise existencial estava num modo mais dinâmico de produzir arte, de forma que em poucos anos diversas correntes artísticas surgiram, como o impressionismo, o expressionismo, o futurismo, o construtivismo, o De stijl, entre outros, uma sobrepondo-se a outra, e se completando no caminho de construção para uma arte com a cara da modernidade.

É claro que uma mudança como essa no mundo da arte influenciaria completamente todos os campos da cultura humana. Assim, a literatura, o cinema (que surgia na época), a arquitetura, a música, a escultura e todos os campos do saber sofreram grandes alterações. Diversos expoentes advindos dessa nova forma de produzir elementos culturais tornaram-se ícones da sociedade moderna: Picasso e o cubismo, Monet e o impressionismo, Salvador Dalí e o surrealismo, Rodin e o seu famoso “Pensador”, Le Corbusier e os cinco pontos essenciais para uma boa arquitetura, Frank Lloyd Wright e sua casa da cascata, a Bauhaus de Gropius, o arranha-céu de Mies Van Der Rohe, entre outros. Personagens complexos e fantásticos, que trouxeram ao mundo uma revolução artística e cultural tão grande quanto o foi o Renascimento do século XV.

A partir desse ponto, a arquitetura assume uma nova particularidade e abandona os adornos do ecletismo em voga. Ela passa a se concentrar na funcionalidade e na forma, utilizando para isso plantas livres, fachadas limpas, cores neutras, e muito concreto e vidro! Le Corbusier sonha com uma cidade perfeita, impecável, onde grandes bulevares, arranha-céus enormes e gigantescas avenidas reinariam supremos diante do passado apagado. Seus planos se frustraram, e Paris foi salva. Mas o seu sonho se concretizaria pelas mãos de um presidente ousado, um arquiteto egocêntrico e um controverso urbanista humanista, na capital de um país dos trópicos: Brasília. Os diversos problemas que a gigantesca cidade criou nos últimos cinquenta anos provam que apesar de o projeto moderno ser utopicamente belo, a desigualdade social permeia as suas conquistas. 

-- Thiago Amorim

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Os Estados Pontifícios

Brasão Papal
Apesar de muitas pessoas nunca terem imaginado, o território que hoje é conhecido como Estado do Vaticano é na verdade um último resquício do que um dia foram os Estados Papais (ou Estados Pontifícios). Seu território era vasto e compreendia grande parte das terras da moderna Itália, existindo por cerca de mil anos.

As origens do poder e domínios papais remontam aos tempos de glória do Império Romano. Após a adoção do Cristianismo pelo Imperador Constantino, e a sua oficialização como religião do Império por Teodósio, a Igreja Católica alcançou um status jamais imaginado. Era a representante de Deus na Terra, sob a liderança do Vigário de Cristo, o Papa. Seu poder, que de início era partilhado com o Imperador, tornou-se único e irrestrito após a destruição de Roma pelos povos do Norte da Europa na segunda metade do século V.

Essa situação, entretanto, não era tão confortável. A ameaça dos povos que invadiam a Itália tornou a vida do Clero Romano muito difícil, e a fragilidade do governo de diversos Papas faziam-nos dependentes dos monarcas europeus. Roma nesse período caiu nas mãos de povos diversos, inclusive dos bizantinos no século VI. A ameaça tornou-se tão gritante que até os Sarracenos estabeleceriam um emirado na Península Itálica durante alguns anos.

Mas o poder Papal se tornaria forte exatamente pelas guerras e pela confusão gerada pelos sucessivos povos que iam e vinham pela Itália. No fim das contas, o Papa resolvia questões dinásticas e disputas políticas, agindo como um verdadeiro embaixador de assuntos estrangeiros para cada um dos reinos europeus. Sua bênção instituía ou destruía monarcas, e a fé na Igreja manteve certa coesão numa época em que a Europa mergulhava em caos e disputas mesquinhas. 

Divisão Política da Europa do século XVIII
Os Estados Pontifícios foram formados a partir de várias terras e regiões que iam de Roma até a fronteira com a República de Veneza, e surgiu oficialmente a partir do século VIII, sob a proteção (dominação) do Rei Franco Pepino, o Breve. O futuro Império Carolíngio teria uma relação direta com o Papado, de forma que o reino da França, originado do desmembramento Carolíngio, influenciaria na escolha do Papa até o século XIV, quando o cativeiro de Avignon acabou e o Papa voltou para Roma.

A história dos Estados Papais, portanto, é cheia de reviravoltas, e de mentirinhas também. O documento conhecido como “doação de Constantino” (desmascarado ainda durante a Idade Média) serviu durante algum tempo como legitimador da sua instituição. Seus domínios sofreram expansão e contração contínua, sendo a época do Renascimento o momento de maior esplendor. Sob a mão forte e imperiosa do Papa Júlio II, os Estados Pontifícios alcançaram o seu auge. Várias regiões foram anexadas, tornando-o forte e independente de auxílio estrangeiro. Júlio II também foi responsável pelo surgimento da Guarda Suíça, um corpo de elite preparado para defender o Papa sob qualquer circunstância, e que foi responsável pela salvação de Clemente VII durante o saque de Roma de 1527.

Então mesmo que isso pareça esquisito, o Papa era um soldado, um estadista, e um monarca absolutista de um vasto território europeu. Ele concedia títulos, cobrava impostos e tinha sua própria Corte, captando recursos e destinando-os a diversas empreitadas Roma afora. Eis, portanto, a origem da expressão “príncipes da Igreja”: os Bispos, Cardeais e Arcebispos são Príncipes desse Império Papal espalhados pelo mundo.

Mas apesar da força, do exército, dos recursos e do poder que o Papa tinha, a Idade Moderna lhe preparava uma surpresa. A Itália começou a ser reunida sob um único soberano, e pouco a pouco suas terras foram sendo engolidas pelo novo estado que surgia. Em meados do século XIX, os Estados Pontifícios se resumiam apenas a cidade de Roma, território este que seria tomado pelo Rei Vitório Emanuel em 1870, e o então reino Papal destruído. É claro que Pio IX, o Papa da época da conquista Italiana, não ficaria feliz com isso. Ele pediu ajuda ao mundo para reaver seus territórios, e não aceitou qualquer compensação pela destruição do seu reino.

Bandeira dos Estados Pontifícios
Somente no primeiro quartil do século XX, o papado aceitaria as compensações e faria um tratado com a Itália (Tratado de Latrão de 1929), em que a Igreja teria o Vaticano como um país independente, junto à autonomia de algumas regiões da cidade de Roma (propriedades da Igreja) e do território de Castel Gandolfo.

Hoje os Estados Pontifícios se resumem quase que exclusivamente ao Vaticano, e formam um país independente dentro da cidade de Roma. É o menor território independente do mundo, mas completamente dependente dos recursos vindos de fora de suas terras. Sua população de cerca de mil habitantes dispõe de moeda, banco e correio próprios. Os tesouros acumulados pela Igreja por dois milênios tornam-na incrivelmente rica, e sem dúvida é a única instituição em toda a história a sobreviver durante tanto tempo.

Os Papas da nossa época não têm a ínfima parte da força que seus predecessores renascentistas tiveram, mesmo que seu poder temporal ainda exista. É uma sociedade medieval que perdura no mundo moderno, e que por isso às vezes parece meio deslocada dentro dele. Mas mesmo que os críticos tentem deslegitimar o seu papel, o papado perdura como uma instituição indispensável para a fé do mundo católico contemporâneo. 

-- Thiago Amorim

Para saber mais:

"Declínio e Queda do Império Romano" - Edward Gibbon
"Basílica de São Pedro - Esplendor e Escândalo na Construção da Catedral do Vaticano" - R.A. Scotti
"Carlos Magno" - Jean Favier