No século XVII nos arredores de Paris, em Versailles, o grandioso Rei Luís XIV mandou erguer um suntuoso palácio onde deveria morar junto com a nobreza francesa. O conjunto era composto por jardins, fontes, salões de bailes e festas maravilhosas. Inúmeros artistas participaram da empreitada da construção, de forma que a magnífica obra tornou-se o “sonho de consumo” de qualquer dirigente europeu na época.
Naquele tempo, a aristocracia francesa era proibida por lei de trabalhar. Ela era composta pelos “homens das armas”, e por isso deveria ser sustentada pela plebe, o “terceiro estado francês”. Por mais de cem anos, mesmo após a morte do “Rei sol”, a situação política e econômica da França continuou praticamente inalterada. A nobreza morava em Versailles, e vendo tanta suntuosidade e beleza todos os dias, chegavam até mesmo a acreditar que o país inteiro era perfeito como o palácio.
Mas os tempos mudaram, e as regras sociais também. A crise atingiu o palácio, a aristocracia e o rei. Cabeças rolaram, literalmente, e a magnífica obra francesa foi esquecida. A residência real aristocrática foi abandonada em Versailles durante um grande período e sofreu com as intempéries do clima e do tempo.
Dubai hoje se assemelha a Versailles. Magníficas obras de engenharia, e suntuosos palácios foram construídos nesse Emirado, em meio ao deserto, tornando-se o refúgio dos ricos e poderosos. Um gigantesco resort a céu aberto, com todas as regalias e confortos possíveis, foi cuidadosamente montado nos últimos anos a custos simplesmente estratosféricos. Para os ricos visitantes de Dubai, a suntuosidade do ambiente pode trazer-lhes a ideia de mundo perfeito, assim como os nobres franceses dos séculos XVII e XVIII.
Mas, assim como em Versailles, a crise econômica trouxe problemas. Não há hoje três estados como na França revolucionária do século XVIII, mas há problemas financeiros gritantes por todo o mundo. A bolha imobiliária de Dubai demorou a estourar, mas agora mostra os sinais catastróficos do excesso de gastos e da confiança excessiva em propostas de crédito apenas cogitadas.
Na França de hoje, o magnífico palácio sobrevive graças a donativos feitos por particulares e por uma contribuição do governo, tendo se tornado um museu. Dubai parece caminhar pelo mesmo caminho. Mas, diferente da outra obra, talvez ela não tenha tanta sorte. O mundo perfeito dos ricos e famosos no Emirado talvez afunde nas areias do deserto antes que se possa fazer alguma coisa.
-- Thiago Amorim










